Regresso?

Agosto 2007

Se não aconteceu partida…

Momento

Julho 2007

Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre linguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música

David Mourão-Ferreira

É bom

Julho 2007

sentir, mesmo no mais fundo das horas incendiadas, que és colo protector, cofre de segredos e magias, ombro e mão.

saber que me lês como mais ninguém lê, porque te confio o paralelo de mim, seja ele a sede, a loucura súbita da outra, ou tão só a criança só…

ouvir a tua voz inesperadamente trazida por um vento qualquer em terra  distante e quente

Ilha

Julho 2007

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

                       David Mourão-Ferreira

maravilha

Julho 2007

afinal não há 7, mas oito maravilhas!

silêncio 3

Julho 2007

onde estás?

onde não queres estar?

silêncio 2

Julho 2007

pensar em silêncio…

mata a loucura?

devolve a sensatez?

pensar em silêncio…

não me devia

ser permitido

(tudo menos colorido)

eu…  a velha eu acorda

de regresso

outra vez?

pensar em silêncio…

fechas os olhos

finges que não estou

e essa que só há

sob o teu feitiço

nunca mais a vês.

pensar em silêncio…

a calma regressa

o (meu) corpo adormece

o (teu) corpo esquece

o sol arrefece?

silêncio

Julho 2007

o dia passando cheio de ocupadas horas

nas horas as tuas palavras pelo meio, quebrando docemente o silêncio

silêncio que diz mais que as vozes em coro do mundo

mundo que de repente parece tão grande

grande como eu não sou

sou assim pequenina apenas

apenas e simplesmente  isso e tu sabes

sabes sempre antes mesmo de eu saber

saber depois o que acontece

acontece o que tiver de acontecer.

o vazio

Julho 2007

espaço de coisa nenhuma,
espaço de encontro.
espaço cheio de nada,
espaço onde bebo.
espaço vazio,
que enche.
espaço oco,
cheio de sensações.
um vazio que preenche…

saudade

Julho 2007

é assim uma espécie de espaço aparentemente vazio por dentro, mas completamente cheio do que lembro, do que imagino, do que desejo…

é bom ter sede

(corpo vivo)